Hoje, conversando com uma senhora de quase 80 anos, me fiz no direito de pergunta-las algumas coisas, sobre como era o relacionamento entre ela e o marido.
Entre algumas perguntas indiscretas, perguntei-a se ela conversava muito com o marido, quando eles tinham algum problema. Ela olhou para mim, meio cabisbaixa e como que por um minuto de tristeza, me respondeu com uma frase bem curta: Eu tentava!
Eu insisti em me aprofundar no assunto e questionei-a: Como assim?
Ela mais ou vez, olhou para o chão e disse: Eu sempre tentei conversar com meu marido, mas ele nunca queria! Por muitas vezes, cheguei a parar na frente dele e falava: por favor, eu preciso conversar com você! E ele, como tinha no hobby, algo mais importante, olhou pra ela e disse: Agora não dá tenho que correr, pois senão perderei meu compromisso! O hobby era jogar cartas com amigos. Ao contrário do que muitos pensam, ele não tinha outra, ele realmente, ia jogar cartas, isso era o mais importante pra ele.
Continuando a conversa com ela, perguntei a ela, até quando ela o considerava como marido-homem? Ela pestanejou e me respondeu, isso já faz muito tempo, mas apesar de tê-lo sempre como marido, eu comecei a ter também meus hobbies e assim, o tempo passou. Ficamos juntos por 30 anos, ate a morte dele!
Quando nos casamos, a vida não era como hoje, mas, eu me apaixonei por aquele homem com cabelos lisos que caminhava como se levitasse e tinha um olhar de anjo. Depois vieram os filhos (5) e eu comecei a me ocupar deles e enquanto isso, meu marido buscou esse hobby.
Curiosamente, eu a perguntei: Até onde você o amou? Ela parou, pensou e disse: Eu o amei ate a morte dele, mas nosso amor, foi se modificando. Era ainda um amor, só que não da mesma maneira como antes.
Insistidamente, eu perguntei: Nesse tempo em que ele saia para jogar com amigos, você não se sentia sozinha? Ela me disse: No início, era meio complicado, tinha filhos para cuidar e com o tempo, os filhos crescendo, comecei a ter meus hobbies também! Quais? Perguntei eu! Eu viajava, fazia cursos, ia a congressos, shows e buscava me ocupar com livros e outras coisas! Respondeu ela.
Eu parei por um momento, meio que me segurando para não prosseguir na pergunta, mas não resistir e fui bem indiscreta: Depois que você se casou com ele, você teve outro homem? Ela riu e me disse: Hoje, você esta bem indiscreta hein? Eu ri, achando que ela não fosse me responder. Ela parou, meio rosada e disse: Eu me apaixonei uma vez por um homem, separado e com 3 filhos. Uauuuuuu, disse eu. E como foi? Mais uma pergunta...Ela me disse: Eu me apaixonei por um homem e em um desses dias, cheguei perto do meu marido e o chamei para conversar, ele como estava de saída, de novo, me disse que não tinha tempo. Eu falei repentinamente: Me apaixonei por outro homem! Ele parou, fitou-a nos olhos e disse: Você esta maluca? Eu aproveitei o momento e falei abertamente, para ele, que estava mesmo apaixonada por outro homem, mas que nunca havia tido nada com ele. O marido sentou-se a mesa, pela primeira vez em muitos anos, chamou a e disse: quem é ele? Ela respondeu com toda a sinceridade. Ele olhou-a e disse: Esquece, ele não vai querer nada com você!
Ela falou: Talvez, ele não queira, mas isso não me impede de me apaixonar por ele.
O marido ergueu-se, pegou o casaco, despediu-se e foi mais uma vez para se encontrar com os amigos.
Nesse momento, ela me olhou e disse: Você ainda é jovem e a vida sempre tem algo para lhe ensinar, a única coisa que posso lhe dizer é: tente sempre! Tente sempre se abrir e conversar com seu parceiro, não importa a gravidade do assunto, converse sempre! Depois disso, ela meio agitada me disse: No relacionamento existem varias formas de amar. Quando nos casamos, somos apaixonados, tudo queima como se fosse fogo, depois de um tempo, o amor se enriquece e há uma troca constante de ajuda, depois de 2o ou 25 anos de casamento, o amor é algo que não se pode explicar, mas ele existe, assim como que no inicio, mas não queima como antes, o que fica é o resto do que se queimou e esse resto, petrifica como se fosse uma base solida e forte, daí você constrói sua vida junto com seu companheiro. O amor não acaba, ele apenas se transforma!
Eu parei e fiquei pensando e por um momento, disse: Eu queria que meu casamento fosse para toda a vida! Ela me disse: É o que todos querem! Depois disso, ela se levantou, pegou um copo de agua e me disse: Se você quer ter um casamento por toda vida, busque sempre o dialogo e procure entender a diferença entre vocês! Eu perguntei-a: Mas, se ele não quiser conversar? Ela olhou e disse: Você ao menos fez sua parte!
Levantou-se e foi para o quarto.
Eu insistentemente, fiz uma ultima pergunta: Você não gostaria de ter outro homem? Você ainda é jovem e bonita!
Ela me olhou, riu e disse: Não quero passar mais tempo da minha vida, lavando meias. Riu e saiu!
Ela é Européia, mora na Suiça e tem quase 80 anos e aos 70 perdeu o marido, num enfarto fulminante, ao qual aconteceu, quando ele saía para mais um jogo.
Ela fala 5 idiomas, aprendidos enquanto ficava sozinha em casa. Viaja para o mundo todo, sozinha ou com amigas, ajuda as pessoas carentes, é voluntária em muitos casos onde instituições necessitam. Foi para a Indonésia ajudar as vítimas do Tsunami e de uma saúde invejada por muitos jovens, ainda trabalha em um escritório.
Olhando isso tudo de perto, vejo como as vezes, deixamos alguns momentos sagrados passar desapercebidos em nossa vida. As vezes, uma palavra, um gesto, qualquer coisa, sinaliza nossa extrema carência por um outro ser humano. É claro que muitos pode achar que conseguem viver sozinhos e felizes, mas, será que ela se arrepende de ter vivido os 30 anos com ele?
Pois é, essa foi a pergunta final, na qual a resposta me surpreendeu . Ela simplesmente, me disse: Eu viveria todos os anos da minha vida da mesma maneira, pois mesmo que ele por muitas vezes, não conversava comigo, em nenhum momento, parei de VIVER.
É isso! Que os homens possam ouvir mais e que as mulheres ainda tenham forças para enfrentar as barras com tamanha sabedoria e nunca, nunca, se esqueçam de viver... O resto? Fica por conta de cada um avaliar-se como tem vivido e de que maneira tem agido com os outros.
Até a próxima..beijos
segunda-feira, 10 de março de 2008
Uma mulher e seus quase 80 anos
Postado por BRANCA DE NEVE às 17:14 1 comentários
Marcadores: Vida de casado
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